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Resenha | HQ O Perfuraneve

perfuracapa-222x300 Resenha | HQ O PerfuraneveConsiderada uma das melhores HQ’s de ficção científica, a trama de O Perfuraneve se passa na terrível e eterna Era do Gelo, onde a sobrevivência humana parece impossível. Porém, cruzando as infinitas terras devastadas, o último bastião da humanidade segue, imparável, sobre os trilhos: o Perfuraneve. Esse trem fantástico, de tecnologia revolucionária, é capaz de cruzar a Terra eternamente em moto-contínuo, abrigando os últimos representantes da espécie humana.

O que seria a salvação do homem, no entanto, torna-se com o tempo uma cruel reprodução dos bons e velhos mecanismos que levaram o planeta à destruição, incluindo a rígida estratificação social, a opressão política como forma de dominação, o embuste religioso e a consequente alienação.

Resenha

Um incrível clássico cult da ficção científica, a graphic novel francesa O Perfuraneve (Le transperceneige, 1982) é uma HQ distópica que mostra como vivem os últimos sobreviventes de um acidente climático que fez a Terra atingir os 90 graus negativos. Esses últimos representantes da espécie humana vagam a bordo dos expressos Perfuraneve e Desbrava-Gelo, sendo o primeiro trem um máquina com 1001 vagões que é capaz de cruzar a superfície devastada da Terra.

Escrito por Jacques Lob (1932-1990) e desenhado por Jean Marc-Rochette, o quadrinho se passa em um período de tempo não definido – mas que muito com certeza é no futuro –, e narra as histórias que acontecem dentro do impressionante Perfuraneve e em seguida do não menos impressionante Desbrava-Gelo. O Perfuraneve reúne 3 histórias escritas por Jacques Lob (O Perfuraneve) e Benjamin Legrand (O Explorador e A Travessia), e ilustradas por Jean-Marc Rochette. Juntar a trilogia em um único volume foi um grande mérito da Aleph, O Explorador (1999) e A Travessia (2000) foram escritas por Benjamin Legrand após a morte de Lob. A obra serviu de inspiração para o filme Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013), estrelado por Chris Evans (Capitão América) e Tilda Swinton (O curioso caso de Benjamin Button).

Em O Perfuraneve, os 1001 vagões do expresso compõem três comboios: o terceiro, formado pelos últimos vagões, são ocupados pelos “fundistas”, considerados cidadãos de 3ª classe, são os correspondentes aos “esquecidos” pela sociedade, como por exemplo os mendigos e moradores de ruas atuais; os vagões do segundo comboio são ocupados pelo correspondentes à classe média, que são a maioria, aqueles que vivem relativamente bem, que tem o suficiente para sobreviver; e os do primeiro são os chamados de “vagões dourados”, os vagões que tem todas as regalias, que tem tudo do bom e melhor, são os habitados pelos ricaços e governantes do trem. Através dessa divisão de classes, percebemos que os sobreviventes passaram a reproduzir os mesmos mecanismos que levaram o planeta à destruição, e também no decorrer da história vemos outros mecanismos presentes, como a opressão política, o embuste religioso e a alienação total.

Nesta primeira parte acompanhamos a fuga do protagonista Proloff do vagão dos fundistas, seu encontro com a Adeline Belleau, uma espécie de ativista social que lidera um grupo de apoio aos fundistas, e as descobertas decorrentes de tal fuga. Durante a fuga de Adeline e Proloff pelos vagões, vemos uma panorâmica das condições presentes no trem, onde acompanhamos muitas situações diferentes e perigosas. Vemos uma sociedade que idolatra a “Santa Locomotiva” como sua salvadora, vemos as lutas politico-sociais já conhecidas por todos nós em nossa sociedade atual, mas acima de tudo vemos uma sociedade que não aprendeu com seus erros, podendo então sucumbir novamente a seu egoísmo e ambição.

Percebe-se claramente uma diferenciação entre a primeira parte e as outras, a primeira é o Perfuraneve “original”, sendo ela uma história um pouco mais envolvente que as outras. Não que as seguintes sejam ruins, longe disso, é apenas que a primeira parte é difícil de ser igualada. Inclusive o filme, apesar das grandes diferenças, foi baseado nela.

As outras duas partes acontecem 15 anos depois do final da primeira parte, dentro do Desbrava-Gelo, um trem menor, mas mais sofisticado que o Perfuraneve. Em O Explorador, acompanhamos a trajetória de Puig Vallès, um explorador que tem por função explorar o mundo exterior realizando missões secretas. Acompanhamos também a protagonista Val, uma artista criadora de cenários virtuais que a população acessa para viver uma realidade diferente da que conhecem, sendo que a escolha de quem pode acessar esse mundo virtual é através de sorteios semanais. Neste volume vemos que o maior medo destes sobreviventes é que o trem deles se choque justamente com o Perfuraneve e, aparentemente, costumam fazer exercícios frequentes de frenagem para se preparem para tal situação. Ainda, apesar de ainda termos uma sociedade dividade em classes, aqui ela é um pouco mais organizada. Enquanto os mais ricos se entretêm com simulações virtuais da vida antes do apocalipse, parte da classe miserável se refugia na crença de que eles não estão num trem percorrendo a Terra, mas sim numa nave à deriva no espaço. Já no A Travessia, finalizando a trilogia, temos a continuação direta da segunda parte. Sendo esta parte recheada de revoltas sociais, conspirações e até ataques terroristas.

Com relação ao projeto gráfico, temos uma capa simples e direta, um trem “perfurando” a neve e um título em letras garrafais com o nome da obra. No interior vemos uma arte em preto e branco repleta de texturas reforçando a conjuntura da obra. Um detalhe interessante no traço do Rochette é que a gente não consegue perceber muitas diferenças em personagens com funções iguais, como por exemplo nos soldados. Nas páginas encontramos um papel couché de alta gramatura, capa cartonada e com um tamanho considerável que reforça a grandiosidade da obra. No final há um generoso posfácio com esboços de artes e informações sobre o quadrinho e sobre O Expresso do Amanhã (Snowpiercer), dirigido por Bong Joon-Ho e lançado em 2013.

É uma obra sensacional, um clássico incrível que merece total atenção de todos que curtem uma boa ficção científica. E principalmente, é uma obra que nos faz refletir bastante sobre o nosso papel, e dos nossos governantes, na sociedade em que vivemos.

Imagens da HQ

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Trailer do filme

*Resenha Originalmente publicada na coluna Outros Quadrinhos do blog Escrev’arte.

O Perfuraneve

Avaliação

Muito Bom!

Considerada uma das melhores HQ's de ficção científica, a trama de O Perfuraneve se passa na terrível e eterna Era do Gelo, onde a sobrevivência humana parece impossível. Porém, cruzando as infinitas terras devastadas, o último bastião da humanidade segue, imparável, sobre os trilhos: o Perfuraneve.

Sobre Cleson Cruz

Sou potiguar com muito orgulho, pai e marido. Engenheiro Eletricista e Designer Gráfico de formação. Gosto muito de música e cinema. Sou viciado em séries de TV. E leio muito quadrinhos e livros desde a minha tenra infância.

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