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Resenha | A Fábrica de Robôs, de Karel Tchápek

capa_rur-e1484257779814-210x330 Resenha | A Fábrica de Robôs, de Karel TchápekEsta peça, publicada em 1920, apresenta um mundo onde o avanço indiscriminado da ciência e da tecnologia deflagra uma crise sem precedentes que ameaça toda a humanidade. Um cientista descobre a fórmula capaz de dar vida a máquinas de aparência humana, gerando um desequilíbrio radical no modo de produção e tornando a mão de obra humana obsoleta.

Essas “criaturas” artificiais”, imaginadas por Karel Tchápek (um dos mais celebrados autores tchecos do século XX), são desprovidas de sentimentos e criatividade e passam a exercer todas as atividades braçais, com consequências nefastas para os homens. A palavra “robô”, cujo significado em tcheco é “servidão; trabalho forçado”, foi cunhada e usada pela primeira vez nessa peça, e mais tarde seria incorporada em quase todas línguas.

Tanto o stalinismo quanto o nazismo ainda estavam sendo gerados no ano em que a peça foi redigida, mas esta obra constituiu um alerta contra os fundamentalismos ideológicos que, logo mais, se abateriam sobre o mundo.

Resenha

A Fábrica de Robôs causou alarde quando foi encenada pela primeira vez, em 1920. Dividida em três atos, a peça trazia à tona uma temática incomum à época: a profunda crise deflagrada pelo avanço científico-tecnológico, a qual punha em risco a espécie humana. Na peça, “máquinas” semelhantes a homens passam a exercer todas as atividades braçais antes exercidas pelos homens. Tchápek cunhou o termo “robô” – palavra que em tcheco significa servidão e trabalho forçado (fenômeno curioso é que, desde então, essa palavra foi incorporada a muitas línguas) para denominar essas “máquinas”. E, apesar do nome “robô” estar associado atualmente a máquinas, na peça são entidades humanoides de origem biológica.

[…]Mas o velho Rossum tinha a intenção de fazê-lo literalmente. Você sabe, ele queria depor Deus de uma maneira científica. Era um grande materialista e por esse motivo fazia tudo isso. Ele queria simplesmente provar que não havia a necessidade de um Deus. Por isso ele cismou de fazer um homem tim-tim por tim-tim como nós.

A peça começa com um diálogo entre Helena e Domin, gerente da fábrica, e seus sócios. Sendo que Helena acaba por confessar que  veio com o propósito de tentar libertar os robôs. Mas ela é confrontada com o fato de que eles eram insensíveis a seu estado, pois eram desprovidos de sentimentos. Neste momento ficamos sabendo que eles foram criados para substituir o homem em todas as tarefas, inclusive nas fábricas, em trabalhos domésticos e nas guerras, já que não possuem as incomodas “fraquezas” humanas. Em certo momento os robôs se descontrolam e passam a ameaçar o futuro da raça humana…

Antes dessa peça, só havia lido uma outra, a Otelo de Shakespeare. Ler uma peça teatral é algo muito diferente, e ainda mais quando é de uma época tão diferente da nossa. O mais surpreendente ao ler A Fábrica de Robôs, que foi o primeiro livro que tratou da fabricação em série de entidades artificiais com a intenção de substituir trabalhadores, é a incrível atualidade do tema. Já que estamos no momento em que chegamos mais claramente próximo a fatídica substituição do ser humano pela tecnologia. A leitura do livro é bem simples, até mesmo com uma narrativa bem inocente e surreal. Apesar de, claramente, Tchápek alertar os leitores sobre os perigos dos fundamentalismos ideológicos.

[…]Lembrei-me de que a história não é feita de grandes sonhos, mas das pequenas necessidades de todas as pessoas insignificantes, honradas, um pouco desonestas, egoístas, de fato, de todo mundo. Todos os pensamentos, amores, planos, heroísmos, todas essas coisas aéreas servem apenas para que o homem seja empalhado com elas…

Com relação ao projeto gráfico, a edição de bolso da Hedra é bem cuidada e possui uma arte bem interessante, mostrando humanoides em um ambiente de fábrica. A edição é feita em tradução direta, o que ganha bastante em fidelidade. E mais, em uma belíssima leitura introdutória, temos um texto muito rico sobre a literatura tcheca, o autor e sua importância para a literatura universal.

Este é um livro importantíssimo para quem gosta de boa Ficção Científica e esta interessado em mergulhar mais a fundo em seus primórdios. Recomendo fortemente.

***

Cenas da peça:

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capek-591x330 Resenha | A Fábrica de Robôs, de Karel Tchápek

Onde comprar: Hedra

A Fábrica de Robôs

Capa & Diagramação
Narrativa & Diálogos
Enredo
Personagens
Revisão

Excelente!

Este é um livro importantíssimo para quem gosta de boa Ficção Científica e esta interessado em mergulhar mais a fundo em seus primórdios. Recomendo fortemente.

Sobre Cleson Cruz

Sou potiguar com muito orgulho, pai e marido. Engenheiro Eletricista e Designer Gráfico de formação. Gosto muito de música e cinema. Sou viciado em séries de TV. E leio muito quadrinhos e livros desde a minha tenra infância.

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