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Resenha | Os Invernos da Ilha, de Rodrigo Duarte Garcia

INVERNOS-DA-ILHA-202x300 Resenha | Os Invernos da Ilha, de Rodrigo Duarte GarciaTítulo: Os Invernos da Ilha

Autor: Rodrigo Duarte Garcia

Editora: Record

Páginas: 462

Gênero: Romance, Aventura, Caça ao tersouro

Fonte: Cortesia da Editora

Skoob

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Sinopse (Fonte: Skoob) Romance de estreia do jovem autor Rodrigo Duarte Garcia tratado desde já como o Conrad brasileiro.
Os invernos da ilha é um livro de aventura, como não há no Brasil, que reúne um herói atormentado (e logo apaixonado), uma ilha fria e hostil escolhida como exílio (num convento misterioso), a descoberta de um diário de piratas (e, assim, a reconstrução de uma incrível história de corsários) e a busca por um tesouro escondido. Como diz Martim Vasques da Cunha no texto de orelha: Rodrigo já pertence à categoria dos mestres. Os invernos da ilha costura Wallace Stevens, Melville, Conrad, Patrick OBrien, os filmes de Indiana Jones, Os Goonies sobrando até mesmo para o compositor Rachmaninoff , com tamanha habilidade, que o leitor ficará atônito ao perceber que, no meio disto tudo, há a alegria de narrar uma verdadeira história.

RESENHA

Há algo de mágico no imaginário de algumas prodigiosas pessoas e certamente Rodrigo faz parte deste seleto grupo. Sua mente imaginativa é ampla e sagaz. Há uma profundidade incrível nesta sua história que tanto pode ser um romance que caminha de braços dados com a literatura clássica brasileira, quanto uma aventura ágil e divertida à lá Indiana Jones. Mistura muito bem equilibrada que proporciona ao leitor horas de deliciosa diversão.

Florian é o narrador desta história redigida em primeira pessoa. Viúvo, ele acaba de chegar para se hospedar por um tempo no mosteiro localizado na Ilha de Sant’Ana Afuera, onde seu amigo de infância – Fernando – é monge. Florian pretende investigar sua vocação.

“Os invernos da ilha fazem isso. Esse mar imenso arrebentando, carrancudo, e nós aqui, tão pequenos. Mas depois passa. Logo chega a primavera e tudo passa, o senhor vai ver. Passa logo.”

O que ele não esperava é que aquele lugar solitário, silencioso, cheio de tarefas e de orações pudesse lhe apresentar uma aventura extraordinária e sensações únicas. Nesta narrativa acompanhamos Florian em bate papos com monges e nativos, e conhecemos os pormenores de sua vida e suas escolhas. O observamos travar uma briga interna sobre o interesse repentino por uma moça, a dificuldade de externar o sentimento e a dor de vê-la envolvida com outro. Rimos de sua dificuldade latente em administrar o assédio de uma atirada e bela moça, bem mais nova que ele. Sentimos o coração palpitar com ele à medida que vai vislumbrando as mensagens subliminares constantes no diário do corsário holandês Olivier van Noort – será que existe um tesouro???? O acompanhamos em um ritual que transpassa o tempo e que leva o leitor a se sentir em séculos atrás. Inegável misto de emoções e sentidos.

“Ali estava a confirmação escrita de que, mais de quatro séculos antes, corsários holandeses realmente haviam levado o ouro capturado de uma fragata espanhola a algum lugar da Ilha de Sant’Anna Afuera.”

Além disso tudo ainda somos apresentados ao diário do corsário. Nestas páginas redigidas em itálico vivenciamos o dia a dia de uma tripulação que sobrevive a piratas, doenças, superstições e guerras. É como estar no navio junto daqueles homens e sentir na pele suas mazelas. Parece algo mágico, mas na verdade é uma vida extremamente dura e árdua. Além da narrativa de tudo o que passam no dia a dia, o corsário parece inserir nas entrelinhas algumas dicas e pistas para um tal tesouro imenso, que supostamente ainda está perdido. Um poema instiga os personagens a procurar esta fortuna.

A narrativa é cheia de personagens, mas alguns se destacam. O professor Rousseau está hospedado no mosteiro com a intenção de estudar o fenômeno do milagre sob a ótica da ciência. É um homem culto e elegante, mas me soou extremamente arrogante e prepotente. Porém ainda não sei dizer se me antipatizei por ele por sua personalidade mesmo ou se foi pelo fato de ele ter roubado Cecília de Florian… ainda não me decidi (rsrs). Cecília, por sua vez, é uma graça de pessoa, daquelas que deixam no ar uma áurea de alegria, sabe como? Adorei! Já Viviana me deu nos nervos!!! Eita moça impertinente.  Florian é, para mim, um dos maiores contadores de histórias que já tenha lido. Contador da sua própria história… Enfim, os personagens são bastante marcantes e únicos, muito bem elaborados pelo autor.

Sobre o desenvolvimento da trama, posso dizer que este livro não é muito ágil. É mais para aqueles que se tem na cabeceira e se lê um capítulo por vez. Tanto pela forma com que as descrições são feitas, quanto pela maneira com que os capítulos começam. Na grande maioria os capítulos iniciam como que uma reflexão do narrador acerca de alguma coisa que tenha terminado de acontecer ou que dá o tom do que vem adiante. É como uma “abertura”. Gostei bastante! Para que se tenha ideia da forma única do desenvolvimento, o narrador só se apresenta formalmente na página 87! Até então ele está contando o que tem vivido, mas não o conhecemos formalmente.

Há cenas hilárias ao longo da trama. Florian é o “rei do mico” por ali. Fiquei abismada com sua capacidade de passar vergonha! É preciso dar um destaque especial ao momento em que ele parte para salvar uma pobre moça que está prestes a se afogar… O que acontece na sequência me arrancou boas risadas. E não só. Há na história um duelo. Sim, um duelo cujo foco é a atenção da linda moça. Não tem como não achar engraçada a forma com que se desenvolve.

A obra é excelente e a publicação foi feita com seriedade e profissionalismo. Não encontrei erros de revisão e a diagramação está bem feita. Só penso que a capa está simples demais pela complexidade de conteúdo… sinceramente ela não condiz nem um pouco com a história. Algo que me incomodou um pouco foi o fato de os diálogos serem taxados com aspas ao invés do tradicional travessão. Entendo que é uma tendência, mas ainda não caí nas suas graças. Há também algumas citações no início da trama em latim e em francês que podem incomodar o leitor mais detalhista.

Em suma, a obra é recomendadíssima e o autor mostrou a que veio em sua obra de estreia. Virei fã!

“Ah, é sempre assim. O amigo do irmão da prima… Eu não tenho certeza de nada, mas acho impressionante a capacidade que o homem tem de criar grandes histórias que parecem acessar diretamente algo escondido na nossa imaginação.

Isso se chama ‘arte’.”

Sem dúvida, o autor falava de si mesmo neste diálogo. É um artista!!!

 

Sobre Nadja Moreno

Administradora, professora, blogueira, mãe, leitora voraz. Muitas facetas, uma só alma. Sonho com um país mais leitor, mais crítico, mais evoluído e altruísta.

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