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Resenha | Os Afogados e os Sobreviventes, de Primo Levi

os-afogados-e-os-sobreviventes-os-delitos-os-castigos-as-penas-202x300 Resenha | Os Afogados e os Sobreviventes, de Primo LeviTítulo: Os Afogados e os Sobreviventes

Autor: Primo Levi

Editora: Paz & Terrra – selo do Grupo Editorial Record

Gênero: História, Documentário

Fonte: Cortesia da Editora

Skoob

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Sinopse (Fonte: Skoob) O dia-a-dia no campo de concentração de Auschwitz. A disciplina cega da SS, os prisioneiros debilitados que aceitavam o colaboracionismo como único modo de escapar, os milhões que tiveram seu futuro negado pelo simples fato de serem judeus. Primo Levi reconstitui lembranças, memórias, faz história oral. E cada palavra, cada recordação, cada ponto de vista seu aqui relembrado objetiva esclarecer as novas gerações, demasiadamente afastadas do horror que foi a guerra.

RESENHA

Primo Levi viveu os horrores do holocausto. Italiano, químico e escritor, Levi integrou o Movimento Justiça e Liberdade, no norte da Itália. Como ele e seus companheiros não possuíam qualquer treinamento militar, foram facilmente feito prisioneiros pela milícia fascista. Assim que foi descoberto judeu, Levi foi transferido para um campo de prisioneiros em Fossoli, perto de Modena até 11 de fevereiro de 1944, quando foi transferido com mais 650 judeus para o campo de concentração Auschwitz. Após 11 meses em Auschwitz Levi foi libertado pelo Exército Vermelho. Além de Levi, somente mais 19 homens sobreviveram, daquele grupo de 650…

Neste livro Levi questiona e ao mesmo tempo apresenta argumentos esclarecedores acerca de diversas questões que assombram todos aqueles que não viveram o período do holocausto, ou o vivenciaram de longe, no conforto de suas casas e nações. Perguntas como “Por que os judeus não se rebelaram?“, ou “Como o povo alemão aceitou aquilo como normal?” e outras questões que afloram em nossa consciência sempre que nos lembramos daqueles aterradores fatos estão dura e claramente discutidas nestas páginas.

Eu costumo dizer que o fator que mais me deslumbra acerca do ser humano é sua capacidade de adaptação. Quantas vezes nos deparamos com pessoas vivendo sob condições insalubres, situações que beiram o limite da condição humana… e estas pessoas se adaptam. Conseguem muitas vezes até a acreditar que possuem uma “boa vida”, que a coisa toda não está tão ruim quanto ainda poderia estar. Sem dúvida, a adaptação é algo extraordinário.

E neste livro Primo Levi reforça o meu fascínio por esta capacidade humana. Ele esclarece como é que pessoas comuns passaram a ser duros algozes de outras pessoas comuns baseando-se em argumentos ínfimos e pouco palpáveis. Para quem está do lado de fora, sem viver a realidade na pele, parece absurdo dizer que alguém aceitaria determinadas ordens de extermínio sob a alegação de que “não há mais nada que eu possa fazer”. Ou ainda poderia soar estranho dizer que alguém que está à beira do limite de sobrevivência se sente ameaçado por outro alguém que acaba de chegar para compor o mesmo quadro de sobrevida. Mas era assim que os “moradores” dos campos de concentração se sentiam quando um novo grupo chegava. Não era somente dos soldados da SS que deveriam sentir medo, também o deveriam vivenciar em relação aos “veteranos” de sofrimento. Algo inimaginável, olhando-se de fora.

Quando Levi levanta questões de comportamento humano nestas páginas mais uma vez me remeto à obra de Saramago – Ensaio sobre a Cegueira. Nela Saramago escancara onde vão os limites do ser humano (há limite?) quando algo que lhe é básico é tirado. Quase que como irracionais nos tornamos. O holocausto gerou homens irracionais, por mais cultos, educados e de boa família fossem.

Outro aspecto levantado pelo autor e que estarrece é a presença de “vergonha” apresentada pelos encarcerados. Não há muito como explicar racionalmente, mas muitos judeus sentiam vergonha durante e depois do confinamento. Como assim? Eram vítimas! Pois sim. Eram. Porém as angústias pelas quais tiveram de passar mexeram tanto com seu psicológico que a culpa era absorvida e vivenciada em um nível sobre-humano.

Assim como a “incomunicabilidade”, como o autor apresenta. Somos seres de comunicação. O ser humano é comunicativo em seu cerne. Estas pessoas foram privadas desta necessidade básica, fazia parte de toda tortura com que tinham de lidar:

Nós vivemos a incomunicabilidade de modo mais radical. […] Logo nos demos conta, desde os primeiros contatos com os homens desdenhosos com distintivos negros, de que saber ou não o alemão era um divisor de águas. […] A quem não os compreendia os homens de negro reagiam de um modo que nos espantou e amedrontou: a ordem, que havia sido pronunciada com voz tranquila de quem sabe que será obedecido, era repetida em voz alta e enfurecida, depois berrada a plenos pulmões, como se faria com um surdo, ou melhor, com um animal doméstico, mais sensível ao tom do que ao conteúdo da mensagem. […] Era um sinal: para eles, não éramos mais homens; conosco, como com vacas ou mulas, não havia diferença substancial entre o berro e o murro.

Ou ainda neste relato que me causa ainda mais angústia:

Na memória de todos nós, sobreviventes, sofrivelmente poliglotas, os primeiros dias de Lager ficaram impressos sob a forma de um filme desfocado e frenético, cheio de som e de fúria, e carente de significado: um contínuo e ensurdecedor barulho de fundo, sobre o qual, no entanto, a palavra humana não aflorava. Um filme em cinza e negro, sonoro mas não falado.

Enfim é um relato doloroso e pesado. Confesso que após ler determinadas páginas me senti mal – como por exemplo, quando o autor relata detalhes sobre a transferência dele em um trem lotado (como eram todos), em que não se pensou que seria preciso pelo menos uma lata para servir de latrina. Senhores e senhoras sendo obrigados a defecar na frente de outros senhores e senhoras. Às vezes nos preocupamos com água e comida somente, imprescindíveis, é claro, mas a vida e a dignidade humana precisa de algo mais. E saber que seres humanos desprovidos de culpa vivenciaram coisas como as que Levi relata causa um asco difícil de ser digerido. Porém creio necessário. Quem sabe assim, gerando asco e repugnação em massa, consigamos evitar que novos holocaustos ocorram.

A edição da Paz & Terra está simples mas bem feita. Particularmente prefiro margens um pouco maiores mas não atrapalharam a leitura. Não encontrei erros de revisão nem tradução. Recomendo a obra. É um relato que DEVE ser lido.

Sobre Nadja Moreno

Administradora, professora, blogueira, mãe, leitora voraz. Muitas facetas, uma só alma. Sonho com um país mais leitor, mais crítico, mais evoluído e altruísta.

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