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Resenha | Estamos Aqui, de Jéssica Paula

estamos_aqui_capa-202x300 Resenha | Estamos Aqui, de Jéssica PaulaTítulo: Estamos Aqui

Autora: Jéssica Paula

Editora: Schoba

Páginas: 284

Gênero: Memórias, Biografia, Autobiografia, Viagens, Documentário

Fonte: Cortesia da Editora

Skoob

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Sinopse (Fonte: Skoob) No ano de 2013, Jéssica Paula embarcou rumo à desconhecida realidade das vítimas de conflito na região da Etiópia, Sudão, Sudão do Sul e Uganda. Deficiente física, Jéssica realizou a viagem sozinha. Com uma trama às vezes cômica, às vezes emocionante, a autora conta histórias de vida das pessoas que encontrou durante a viagem, e os desafios para chegar até alguns dos lugares mais remotos que a literatura real já conheceu. Jéssica esteve em campos de refugiados na Etiópia. No Sudão, sob 52 graus de temperatura, ela chegou a ser expulsa de um estado em conflito em que a presença de estrangeiros é proibida. No Sudão do Sul, conheceu crianças soldados. Sem saneamento básico nem energia elétrica, Jéssica teve de se virar para adaptar as condições físicas à estrutura do local. A obra também traz relatos de pessoas sequestradas para trabalhar na milícia de Joseph Kony, um dos 10 mais procurados do mundo. No fim da viagem, Jéssica ainda contraiu malária. Mas voltou sã e salva pra contar, para o resto mundo, que eles estão lá.

RESENHA

Estamos Aqui – Histórias das Vítimas de conflito no Leste Africano

Só de olhar o título e a capa deste livro já se percebe o que vamos ter de encarar de emoções ao lê-lo. De fato é um livro emocionante e extraordinariamente bem escrito. É um relato franco daquilo que Jéssica Paula, jornalista, viu e viveu durante sua viagem ao Leste Africano. Conheceu figuras únicas, personagens da história real. Viveu o dia a dia muitas vezes cruel deste povo vítima de conflitos intermináveis. Conheceu o rigor de suas regras e cultura. Experimentou na pele as dores da vida árdua e precária. E relatou tudo numa linguagem clara, objetiva e emocionante neste belo livro.

“Eu sei por que você está aqui. Você está aqui por causa da gente. Quando voltar pro seu mundo, por favor, conte a eles que estamos aqui”.

Com este apelo Jéssica inicia sua narrativa. Quem poderia passar incólume por este pedido? Quem poderia dizer não e simplesmente guardar para si a experiência vivida? Impossível. Diante desta necessidade, deste desejo de que a história verdadeira pudesse ser conhecida e retratada, não se poderia tomar outra atitude que não publicar. Só por este pedido e pela coragem de Jéssica ao viver tudo que viveu, já se justificaria a leitura desta obra. Não fosse ela cativante, forte e às vezes até cômica, só o pedido e a coragem já seriam motivos mais que suficientes, embora não sejam os únicos.

Ao longo dos capítulos somos apresentados a homens e mulheres que Jéssica teve o grato prazer de conhecer. A sensação é de que somos apresentados pessoalmente, porque a maioria possui fotos logo após o término do capítulo que os representa. Uma experiência muito interessante. Algumas fotos receberam minha admiração por alguns minutos, antes de passar a página e conhecer o próximo protagonista. São vidas, são pessoas reais, são homens e mulheres que estão lá, bem longe de nossa realidade, vivendo uma outra que assusta.

Em vários momentos tentei imaginar como é possível ser feliz em dada situação. Mas ao vislumbrar as fotos o que salta aos olhos é sempre o sorriso. Amplo, franco, largo, real… Tanto que os olhos sorriem junto. Este aspecto gerou em mim uma admiração incrível por estas pessoas e pelo próprio ser humano. Que capacidade de adaptação. Que capacidade de subjugar o mal e a dor. Que facilidade em descobrir a luz por detrás de situações muito pesadas e densas… Seres incríveis estes humanos…

Jéssica não demonstra ter por objetivo a crítica a regimes e costumes, mas é claro que elas surgem em alguns pontos da obra. Comungo com ela vários pensamentos e sensações intrínsecas ao relato, escondido ali nas entrelinhas. Entendo bem que cada cultura tem suas regras, normas e costumes. Mas entendo também que muitas delas são geradas por pura e simples intolerância. Por pura busca desenfreada do poder e satisfação pessoal. Dói profundamente saber que uma criança em idade escolar simplesmente não sabe sequer como segurar um lápis. Isso não poderia ser o retrato de uma nação… mas é.

A realidade apresentada chega a ser surreal em vários pontos e custa ao leitor acreditar que é verdadeira. Que é assim mesmo que as coisas acontecem. Penso que é preciso sempre ler relatos como este, acompanhar documentários na TV e observar notícias do mundo para que esta realidade não seja esquecida por nós. Para que em cada decisão, em cada reclamação, em cada desperdício, possamos nos lembrar de qual é a realidade ali do outro lado do mesmo planeta…

A obra em si, mesmo que fosse feita em papel jornal já seria memorável. Mas aí vem a Schoba e oferece um trabalho magnífico, tornando tudo ainda mais marcante. Esta edição pode ser considerada uma das mais caprichadas de minha estante. A capa de extremo bom gosto guarda páginas de acabamento impecável, em couché. Quando me deparei com a primeira foto entendi. O material oferece uma qualidade fotográfica excelente, e as imagens mereciam este cuidado. Elas falam por si. Elas complementam o texto. Elas fecham os capítulos. Não poderia ser diferente e parabenizo à Schoba por esta sensibilidade. Não encontrei erros e posso dizer que a escrita de Jéssica é deliciosa. Gostaria muito que ela nos presenteasse com mais obras, sejam elas reais ou fictícias. Ganhou aqui uma fã, sem dúvida.

Leia. Mais do que interessante, é importante que se leia esta obra.

Sobre Nadja Moreno

Administradora, professora, blogueira, mãe, leitora voraz. Muitas facetas, uma só alma. Sonho com um país mais leitor, mais crítico, mais evoluído e altruísta.

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Um comentário

  1. Luciana Francischinelli

    Parabéns pela resenha, Nadja! Esse livro é um dos meus favoritos! As histórias tocaram meu coração e fui da lágrima ao riso em muitos momentos. Beijos!

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