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Conto | A história de um viajante, de Sonia Regina

Sonia-Regina-300x150 Conto | A história de um viajante, de Sonia Regina

– O estagiário não veio.

O Dr. Dante, ouvindo a notícia, quis adiar o exame.

– Como, doutor? A paciente já está preparada.

A contrariedade do médico era evidente. Ele detestava gente e não disfarçava. Pacientes falam todo tipo de bobagens. Choram. Fazem perguntas. Algumas vezes perguntas bastante idiotas. Pacientes chateiam.. Algumas vezes agridem.

Dante era quieto. Estudioso. Obcecado pela excelência. Havia em seu mundo organizado apenas um detalhe destoante: o ser humano. As pessoas destruíam, confundiam e atrapalhavam qualquer projeto.

Quando Dante escolheu a medicina, especializar-se em exames de imagem parecia a escolha lógica. Os paramédicos tiravam as radiografias e os médicos, isolados em confortáveis consultórios, escreviam relatórios analisando as imagens.

O mundo, porém, evoluiu. No século XXI os computadores permitiam captar, gravar e analisar as imagens em tempo real, e mais: enviar por email o resultado ao médico assistente, o que retirou os profissionais técnicos do caminho e colocou a execução dos exames de volta às mãos dos médicos. Em outras palavras, Dante não tinha escapatória. Ele tinha de fazer contato com o paciente.

Ah, o estagiário era sua salvação! Aquele residente que se presta a todo tipo de trabalho sujo, monótono e desagradável em troca da orientação preciosa de seu preceptor!

O estagiário de Dante falava, olhava e tocava o paciente. Dante apenas se ocupava dos aparelhos. Solução mais que perfeita até aquela fatídica tarde.

Dante tentou trocar favores com seus colegas, sem sucesso. O único especialista em imagens disponível no hospital naquele horário era ele mesmo.

A enfermeira informou:

– A paciente é Dona Odete. Ala C. Quarto 2.

Dante fechou momentaneamente os olhos, inspirou e preparou-se para o encontro inevitável. Ele praticava artes marciais e usou com dificuldade seu treino de autocontrole. A raiva o instigava a dar gritos, socos e pontapés. Ele concentrou-se no momento presente e acalmou-se.

A funcionária da ala C informou que a paciente estava sozinha, que o acompanhante se ausentara por algumas horas. Dada a informação, a moça voltou-se para seus arquivos e deixou Dante entregue à sua própria sorte.

Dante seguiu em frente. Ele conhecia seus apelidos. Sendo jovem e de bela aparência, quando se apresentava em algum lugar, a mulherada logo o chamava de Dr. Galante ou Dr. Elegante. Ele repelia todo tipo de envolvimento, fosse romântico, pessoal ou sexual. Rapidamente o apelido mudava para Dr. Arrogante.

Dante tivera uma única amiga de infância, a quem amava profundamente, com quem se casara e que agora, para seu espanto e profundo sofrimento, retirara-se de sua vida.

Akiko era a graça, a beleza, a poesia em forma de mulher. Popular, risonha, rodeada por amigos, envolvida em toda sorte de projetos comunitários, fervorosa seguidora de sua religião, em tudo o oposto de Dante, ela fora a luz, o esteio, o norte, a razão mesma de ser da vida de Dante.

Ele nunca a criticara. Ele nunca caçoara dela nem de suas crenças. Ele nunca exigia coisa alguma da preciosa amada amiga. Cumulava-a de mimos, era pródigo em abraços.

Tudo fizera ele para que Akiko fosse feliz, Inexplicavelmente ela afastara-se.

Imerso em frustrações, amargo e contrariado, entrou Dante no quarto e imitou o melhor que pôde o arrazoado de palavras utilizados pelo estagiário para apresentar-se, explicar o que ia acontecer e orientar o paciente.

Dante usou os óculos como uma parede de proteção, isolando seu olhar. Dona Odete, uma mulher de meia idade, de olhar manso, faces redondas, seguia seus movimento com mal disfarçada ansiedade. Ele retirou-se às pressas para evitar possíveis perguntas.

– Bom, está feito. Seu médico já recebeu o exame e vai falar com a senhora em breve. Até logo.

Dante assinou o prontuário, retirando-se rapidamente para o corredor. O que lera? Que a mulher sentia dores excruciantes que a impediam de dormir e respondia mal à medicação. Dante lembrou-se do juramento de Hipócrates, que todo médico profere ao se formar: “consolar, sempre”.

Consolar.

O que significa consolar?, perguntou-se ele.

Dante largou seu aparelho e tornou a entrar no quarto da paciente. Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da mulher. Retirou os óculos e guardou-os no bolso do jaleco.

– Onde dói?

– Aqui, doutor. – ela apontou para um ponto no abdome.

Dante estendeu a mão sobre a região dolorosa. Naquele momento ele sentiu uma vontade imperiosa de aliviar aquela dor, de diminuir aquele sofrimento.

Um calor forte queimou sua mão.

Dante tremeu. Permaneceu com a mão estendida, concentrando-se na ideia de aliviar o sofrimento. Afinal, ele também sofria. Uma sensação de solidariedade o envolveu. Uma noção de pertencimento. Ele era um entre milhões de pessoas a respirar o mesmo ar, a habitar o mesmo planeta, a partilhar experiências, propósitos e sonhos. O mesmo sol iluminava todos, ele e outros milhares de seres humanos. À noite, sobre suas cabeças, reluziam as mesmas estrelas.

A mão esquentava. O calor subiu pelo punho, pelo braço, chegou ao ombro.

Um suspiro da mulher acompanhou um sussurro:

– Obrigada, doutor, já não dói mais.

Ela sorriu e fechou os olhos.

Dante abaixou a mão, levantou-se e retirou-se a passos lentos.

No corredor, a funcionária o abordou:

– O doutor deixou o aparelho aqui fora…o que aconteceu?

– Ela dormiu.

A moça espiou e comentou:

– Dormindo! Ela que não dorme há dias!

Dante afastou-se a empurrar sua máquina e sentiu-se comovido até às lágrimas. Voltou para casa chorando copiosamente. Para a casa vazia. Para a casa que já não era o lar.

Dante ligou para a esposa:

– Eu preciso contar…você é minha única amiga…ouça-me. – ele contou a ela sobre a mão, o calor, as lágrimas. – Nem sei o que aconteceu. Nem sei o que me levou a voltar para o quarto.

– Meu querido, estou feliz por você.

– Não quero que pense que telefonei para você voltar. Eu não estou pedindo nada a você.

– Eu sei. Não vou retirar o pedido de divórcio. Nosso casamento acabou.

– O que faço agora?

– Siga sua vida.

– Ainda somos amigos?

– Sempre seremos amigos.

Ele foi sentar-se na varanda. A lua, magnífica, estava coberta por sombras. Naquela noite haveria um eclipse.

Dante ficou sentado, observando o céu. De dentro dele brotavam sensações leves e alegres. Surpreso, ele procurou as conhecidas sensações: a tensão, o orgulho, a raiva, e insatisfação, a exigência dolorosa e contínua de perfeição. Tudo se fora.

– O que eu era, o que eu pensava ser, eu não sou mais. Quem sou eu, afinal?

Apenas a escuridão lhe respondeu. A lua, completamente oculta, aos poucos reapareceu.

O novo dia encontrou o doutor Dante adormecido na varanda. Ele ergueu-se, sentindo-se renascido e brincou consigo mesmo, resolvendo que seu novo apelido, escolhido por ele mesmo, nesse dia seria Dr. Mutante.

Ele seguiu a pé até o hospital, contou uma piada ao estagiário e olhou cada paciente nos olhos, tocou cada doente com mãos desejosas de curar e com palavras gentis consolou a todos o melhor que pôde.

O que aconteceu depois disso eu não sei e talvez nem seja importante saber.

Ouvi essa história no aeroporto, local ideal para estranhos trocarem confidências e abrirem completamente a alma ao companheiro de viagem, na segurança do anonimato.

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Sobre a autora

11036530_1384987771820839_7004590575002924074_o-e1495157296308-212x300 Conto | A história de um viajante, de Sonia ReginaSonia Regina Rocha Rodrigues é escritora e médica. É autora dos livros de contos “Dias de Verão”, (1998), É suave a noite (2014), Coisas de médicos, poetas, doidos e afins (2014) e um de programação neurolinguística “O Que Você Diz a Seu Filho? – (1999)
Em 1996, participou da fase regional do Mapa Cultural Paulista com o conto “A Auditoria”, representando a cidade de Bebedouro. Sua monografia “A Importância da Cultura Para a Formação do Cidadão” foi utilizada pelo prova do Enem em 2011.

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Sobre Nadja Moreno

Administradora, professora, blogueira, mãe, leitora voraz. Muitas facetas, uma só alma. Sonho com um país mais leitor, mais crítico, mais evoluído e altruísta.

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