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Resenha | Arco de Virar Réu, de Antonio Cestaro

ARCO_DE_VIRAR_REU_1455645176564035SK1455645176B-195x300 Resenha | Arco de Virar Réu, de Antonio CestaroTítulo: Arco de Virar Réu

Autor: Antonio Cestaro

Editora: Tordesilhas

Gênero: Romance Psicológico

Fonte: Cortesia da Editora

Skoob

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Sinope (Fonte: Skoob) Narrativa labiríntica escrita em primeira pessoa, Arco de virar réu descreve os eventos que marcam a deterioração física e mental do narrador-protagonista. Historiador social com forte inclinação para o estudo antropológico, ele é obcecado pelos rituais e pelos costumes dos índios tupinambás. A história começa com o surgimento dos primeiros sintomas de esquizofrenia em seu irmão, nos anos 1970, segue pela adolescência, quando, inspirado em rituais indígenas, o narrador passa a se dedicar à ocultação de cadáveres, e termina com a dolorosa percepção da própria loucura. Digressões delirantes misturam-se a fragmentos de memória e a pesadelos que, aos poucos, colocam em dúvida a própria existência.

RESENHA

A trama dividida em quatro partes é narrada em primeira pessoa pelo protagonista J. Bristol, um historiador social fascinado por antropologia indígena.

No início o personagem conta sobre a insatisfação com sua realidade de vida, das responsabilidades que acabou ocupando após a separação dos pais e dos problemas que apareceram depois da ruptura (a partida da irmã em busca dos próprios objetivos, a morte do pai, os primeiros indícios e agravamento constante da esquizofrenia do irmão mais novo Pedro e o alcoolismo e fragilidade da mãe).

“Ocupo todo o espaço possível em aventuras capazes ao menos de confundir os fatos e na amarga realidade que fez minha própria história uma pequena tragédia sem nenhuma importância para o mundo.”

Pedro perde o espaço lúdico para a realidade paralela de viver em uma guerra. E Bristol em suas tentativas de encontrar sentido nesses delírios e correlacioná-los com a verdade, passa a acreditar ter encontrado semelhanças de padrões nos rituais indígenas de seus estudos nas falas do irmão.

Cada vez mais envolvido com a insanidade e envolto nos problemas familiares, o personagem começa a se deteriorar psicologicamente com pesadelos e devaneios envolvendo militares e índios, que se agravam ainda mais após a morte do familiar esquizofrênico.

E é exatamente nesse ponto que a narrativa se modifica. Vemos-nos dentro da cabeça perturbada do narrador sem saber se determinados fatos ocorreram ou é invenção, faltam informações e sentido, mostrando para o leitor a dificuldade de discernimento da realidade para com a fantasia na mente dele.

“Tenho passado horas inteiras peneirando lembranças no esforço de lotear a memória em coleções agrupadas por temas e indivíduos. Ao grande grupo do fantasioso, composto de suposições aspiracionais, conjecturas futurísticas e outras divagações de gêneros semelhantes, junto as experiências alucinatórias dos pesadelos e o deslumbramento utópico dos sonhos.”

Ao pressentir a morte cada vez mais próxima J. Bristol escreve uma carta para seu primo Juca, seu amigo e confidente durante toda trama, com seus últimos pensamentos e confissões dando desfecho à história.

Com linguagem poética e fluida Antonio Cestaro fez um livro muito prazeroso de ler. Sua escrita me lembrou de Augusto dos anjos que utilizava dessa visão dramaticamente angustiante da matéria, da decrepitude de cadáveres, dos anseios e angústia existencial nas suas obras.

“Não há cura possível para as doenças da alma, o remédio definitivo cabe a serventia da morte, com sua eficiência antisséptica, que elimina, seca, anula, aborta, extingue, recicla e devolve ao planeta apenas uma pequena porção de matéria orgânica que se funde com o solo para fazer brotar de jequitibás e ervas daninhas. As ambições, os quereres, as dores, os medos, os planos suicidas evaporam e caem em gotas num oceano de suavidade onde cedem mansamente os seus significados. E nesse espiral eterna a morte é segura, confiável, resolutiva – um precioso recurso.”

O autor também utiliza o índio, fonte de inspiração de muitos outros livros brasileiros, e da temática loucura que o torna um diferencial.

Recomendo a leitura desse primeiro romance escrito por Antonio Cestaro aos amantes de uma boa literatura brasileira. E deixo meus cumprimentos à editora pelo trabalho surpreendente e bem feito.

 

Sobre Nathalia Freitas

“Por que eu leio? Porque ler me torna alguém melhor. Me faz conhecer alguém que não conheço que são outros eus. Eu leio para encontrar comigo mesmo. Um eu melhor, mais sábio, mais inteligente, com mais senso de humor e por que não, com mais charme. (…)” (Nick Farewell)

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